Aqui você poderá conhecer um pouco mais sobre a vida e a obra de alguns dos grandes nomes da Salsa e da música Latina. Biografias, discografias e informações sobre aqueles que contribuíram para a história e a evolução da Salsa, Mambo, Latin Jazz e a música contemporânea Latina.
Talvez o mais importante embaixador da música Afro-Cubana, inventor do Cubop Jazz, Mario Bauzá era um homem incansável e impetuoso cuja intensidade era comparável apenas pela cordialidade de seu generoso sorriso. Bauzá foi reconhecido por afirmar que o jazz de New Orleans e a música de sua nativa Cuba eram duas faces de uma mesma moeda que veio para o Novo Mundo da África Ocidental. Nascido em Havana em 1911, foi criado por um casal de padrinhos e vizinhos, que pediram aos seus pais se poderiam criá-lo, uma vez que não tinham filhos. Seu padrinho o ensinou a cantar, e ao notar que Bauzá tinha talento, imediatamente o matriculou no Conservatório de Havana. Prodígio no clarinete, tocou na Orquestra Filarmônica de Havana aos 16 anos, algo que lhe deu a oportunidade de viajar o mundo. Em 1926 tocava na Orquestra de Antonio Romeu para completar seus rendimentos (assim como vários outros músicos da Filarmônica), e o acompanhou numa turnê para Nova Iorque. Inspirado por Paul Whiteman, apaixonou-se pelo saxofone e prometeu voltar à cidade quando completasse 18 anos. Em 1930 mudou-se para Manhattan, em Nova Iorque, e ao ficar sabendo que o Cuarteto Machín precisava de um trompetista, aprendeu a tocar o instrumento em duas semanas, e se tornou o mais novo e caloroso trompetista de jazz de Nova Iorque. Em 1939 tocava trompete para Cab Calloway, cuja banda era tão disciplinada e bem sucedida, que conseguia driblar o forte preconceito racial da época nos hotéis, viajando em seu próprio vagão nos trens. Sua passagem pela banda de Calloway foi generosa e lhe rendeu vários frutos, dentre eles, um convite para integrar as orquestras de Duke Ellington e Count Basie.
Provavelmente, o evento mais importante de sua carreira talvez tenha sido sentar-se ao lado de Dizzy Gillespie e integrar, posteriormente, seu grande sonho. Em 1940 tornou-se diretor da banda de seu irmão (de criação) e companheiro exilado Cubano Machito (também conhecido por Frank Grillo), que havia chegado a Nova Iorque em 1937 como vocalista da banda La Estrella Habanera, e liderava sua atual orquestra: Afro-Cubans. O naipe rítmico da Afro-Cubans foi o primeiro a utilizar o Set triplo de Congas, Bongôs e Timbales na formação das orquestras Latinas de estilo Nova-Iorquino. O Bebop desenvolveu-se durante o período de absorção da música Cubana nas bandas de Jazz. A complexidade dos ritmos apresentados pela música Cubana era o tempero ideal para o improviso e a genialidade de Charlie Parker (grande ícone do Bebop). O Cubop (Cuban Bebop), fortemente influenciado pelos arranjos rítmicos de Mario Bauzá na orquestra de Dizzy Gillespie e a força do foco Afro-Cubano nasceu nessa época, em meio às Jam Sessions da casa noturna Birdland em Manhattan, bem ao lado da "Meca" do Mambo: o Palladium. A intersecção entre o Jazz Norte-Americano e a música Afro-Cubana estava então firmada, e esse palco preparou o terreno para o Mambo em Nova Iorque, onde os fãs da música já estavam acostumados à inovação.
Cantor e percussionista, Tito Rodriguez foi talvez um dos mais negligenciados talentos de sua época. Suas bandas, com seus arranjos impecáveis, quebrados, de execuções firmes e demonstrações de bravura nos improvisos, transformaram o Mambo em uma grande arte mais e mais... e mais! Nascido em San Juan (Porto Rico) em 1923, mudou-se para Nova Iorque em 1939, trabalhando nas orquestras de Xavier Cugat e Noro Morales, um Porto-Riquenho que chegou a Nova Iorque na metade da década de 1930 e liderou Big Bands na "Era do Swing". Após alguns trabalhos com um dos alunos de Cugat, Jose Curbelo, com o qual tocou pela primeira vez no Palladium, Tito Rodriguez formou sua própria banda, a Mambo Devils, que depois virou Mambo Wolves, e finalmente ficou como Tito Rodriguez Orchestra. Em 1950 gravou quatro álbuns pela gravadora Tico, e após uma única gravação com a RCA, assinou com a United Artists, onde prosperou como o único artista Latino da gravadora. Sua obsessão pela perfeição musical como líder de uma das principais bandas do Palladium gerou um conjunto de obras gravadas entre as décadas de 1950 e '60 que o colocou no topo da Era do Mambo.
Assim como seus antecessores Mario Bauzá e Machito, além de Tito Puente, trabalhou incansavelmente para manter os altos padrões dos músicos Americanos de Jazz, devoção resumida em diversos temas como Mama Güela (Live at Palladium, 1960) e Cuando, cuando (Back Home in Puerto Rico, 1962). Clássicos do Swing como Satin and Lace (de autoria própria) e Liza (de George e Ira Gershwin) contavam com solos de clarinete ao melhor estilo do fantástico Benny Goodman e os afiados arranjos de Ray Santos, e influenciariam, posteriormente, tanto a Salsa Dura da década de 1970 e o Latin Jazz de '80. O desejo de Tito Rodriguez de levar sua orquestra rumo ao Jazz seria concretizado em 1963 com o lançamento do álbum Live at Birdland - participação de Zoot Sims.
"Como músico, meu trabalho me privou. Passei inúmeros feriados solitários, longe de casa e da minha família, e perdi muitas horas de sol. No entanto eu não me arrependo, pois um artista deve fazer o que sente... isso era algo que eu sentia que devia fazer. Se a minha música levou alegria a uma única pessoa, então eu fui bem sucedido." - Tito Puente.
No início da década de 1920, um jovem casal de Porto Rico, Ernesto e Ercilia Puente, embarcaram em um navio em San Juan e passaram cinco dias navegando rumo a Nova Iorque para dar início a uma vida nova. Ainda que tivessem ouvido falar de uma terra de oportinidades, sabiam que teriam muitas dificuldades pelo caminho. A primeira onda de imigrantes das ilhas Caribenhas, Cubanos e Porto-Riquenhos ansiosos por abraçar o desafio de uma vida nova, ganharam abrigo em Nova Iorque, mas tinham que lutar por cada pedacinho de chão. Após um breve período morando no Brooklyn, a família Puente mudou-se para Manhattan (East 110th St.), juntando se a muitos outros Latinos, na vizinhança que ficou conhecida por: El Barrio. Tiveram então o seu primeiro filho. Ernest Anthony Puente Jr. nasceu no Harlem Hospital, em abril de 1923, e era chamado por todos de Ernestito, que eventualmente tornou-se apenas Tito - o futuro Rei da Música Latina. Ainda um bebê engatinhando, Tito já usava garfos e colheres para batucar na mobília da casa, no batente das janelas e tudo que encontrava pela frente. Ao invés de recriminar e desencorajar o jovem "talento", Ernesto e Ercilia incentivaram seu pequeno e potencial percussionista. Logo o que era "bonitinho" passou a perturbar toda a vizinhança que começou a pressionar a família: "Por que vocês não colocam esse moleque pra estudar música? Ele está nos deixando loucos!". Tito Puente foi então matriculado na New York School of Music, começou a fazer aulas de piano e deu início ao seu longo e próspero caminho pela música. Em 1928 nasce a irmã de Tito, Anna, e quando ela tinha seis anos (e ele 11), ambos entraram em uma escola de dança, inspirados por Fred Astaire e Ginger Rogers: "Annie e eu estudamos todos os tipos de dança de salão - Ballroom Dance".
Enquanto adolescente, Tito cresceu escutando as Big Bands de Jazz e vendo o swing tomar conta da cidade e das rádios com os mestres Benny Goodman, Artie Shaw, Duke Ellington, Count Basie e Chick Webb. Destacando-se de todos esses ícones, seu grande herói e inspiração foi o bateirista Gene Krupa. Aos 15 anos, estudando piano e bateria já há sete anos, era chamado de "El Niño Prodigo" (A Criança Prodígio). Começou então a tocar no bairro com amigos, em festas informais de dança e eventos da igreja. Semi-profissionalmente integrou um grupo chamado Federico Pagani's Happy Boys, que mesmo não sendo um grupo talentoso, agradava pelo repertório de swing. A partir daí, dedicou-se ao estudo dos Timbales. Aos 16 anos Tito Puente participou de seu primeiro show "pago", em uma apresentação única com a Orquestra de Noro Morales no Stork Club. Sua carreira passou a tomar mais corpo quando conheceu o pianista Cubano José Curbelo, que tocava na Orquestra de Xavier Cugat. Curbelo chegou a afirmar: "Eu pensava que tinha visto os melhores timbaleiros em Cuba... até ver a performance de Tito Puente". Ambos viraram grandes amigos, e em 1957 Curbelo se tornaria o agente de Tito Puente. Após o bombardeio a Pearl Harbor, em Dezembro de 1941, os EUA entraram na II Guerra Mundial, e todos os jovens saudáveis e em condições foram recrutados para servir ao seu país. Tito Puente foi então encaminhado ao acampamento em Long Beach para servir à Marinha dos EUA, e em dois anos de trabalho participou de nove batalhas. Durante esse período, além de ser atacado e bombardeado por diversas vezes, manteve-se ocupado com sua música, e apesar da vaga de bateirista já estar ocupada no navio, Tito colocou então em prática os conhecimentos adquiridos em NY sobre o saxofone alto (veja na foto ao lado, ajoelhado à direita). Foi neste período que o jovem Tito Puente começou a dar seus primeiros passos como arranjador e compositor.
Na década 1950 os EUA estavam apaixonados pelo Mambo, e o Palladium se transformou na Casa do mambo e da música Latina. Por intermediário de seu amigo e bandleader Federico Pagani, Tito Puente foi chamado para se apresentar no Palladium. Depois de juntar um grupo de músicos talentosos e batizá-los de Picadilly Boys (por causa de sua composição Picadillo), Tito começava então a sua carreira de bandleader, tocando todos os domingos na casa. Suas primeiras gravações, entre os anos de 1948-49, foram feitas para a gravadora Tico, e incluíam, dentre outros, seu primeiro grande sucesso Abaniquito. Tito Puente deixou a Tico e foi para a gravadora RCA por um curto período (de 1949 a 1951), onde gravou os originais de Ran Kan Kan e Picadillo, e em seguida retornou à Tico. Seu plano era simples. Primeiro passo: começar com um grupo dedicado de músicos talentosos, os quais ele chamava carinhosamente de "the boys" ("os meninos"). Em 1951 Mongo Santamaria, que já havia tocado com Perez Prado, juntou-se ao grupo, substituindo o congueiro Frankie Colón. Na sequência veio Charlie Palmieri (irmão mais velho de Eddie Palmieri), substituindo o pianista Gil Lopez, e tornando-se o pianista de maior influência na música Latina; Segundo passo: tocar músicas dançáveis de alta qualidade e que atendam às exigentes expectativas de seu público. E claro... trabalhar, trabalhar, trabalhar até aumentar cada vez mais esse público e construir um valioso mercado. Eficiência de seu plano: 100%!
Enquanto Tito Puente aperfeiçoava seu som e ganhava reconhecimento, o Mambo se tornava cada vez mais popular. Combine então o Mambo com as poderosas formações instrumentais, as habilidades e arranjos de músicos como Mario Bauzá, René Hernandez e Tito Puente, e você terá uma paixão nacional. Os negócios estavam "bombando", e noite após noite empolgava multidões que se amontoavam na esquina da Broadway com a 53rd., lotando a pista de dança do Palladium, que contava frequentemente com as aparições mais do que especiais de astros de Hollywood como Marlon Brando e Kim Novak. Durante a era do Palladium, Tito Puente desenpenhou um papel fundamental no cruzamento do Jazz com a música Latina que ficou conhecido como Cubop. "Eu combino os conceitos melódicos e as modulações harmônicas do Jazz com o ritmo da percussão Latina, sem que nenhum perca a autenticidade. Como diria Dizzy Gillespie, é um casamento!" - afirmava Tito Puente. No meio de toda essa loucura, começou então a se aperfeiçoar nos Vibrafones, adicionando o instrumento à sua Orquestra, sendo um dos primeiros Latinos a tocar o instrumento numa banda Latina. Muitos adoravam o som dos "vibes", mas Tito também sofreu várias críticas daqueles que estavam acostumados com seu trabalho e habilidade na percussão, com os Timbales. Ao fim da Era Palladium, Tito Puente já tinha um público cativo por todo o país e começava a canhar o mundo. Deu andamento às suas gravações, estabelecendo parcerias de sucesso como com a vocalista cubana La Lupe e a rainha Celia Cruz, uma das artistas que fugiram do regime de Castro em Cuba no início da década de 1960. Depois de sua indicação ao Grammy em 1978, com o álbum "The Legend", ganhou o seu primeiro prêmio em 1979 com o álbum "Homenage a Beny Moré". Lançou o seu centésimo álbum "The Mambo King" com uma arrasadora versão de seu grande sucesso Ran Kan Kan, ocupando o a lista Top Ten Club da Billboard em 1991 - quarenta e dois anos após o lançamento original e, 1949.