GuestBook

Curiosidades

Você sabia que termos como conga, bongo e mambo vieram da linguagem Bantu, e suas danças se transformaram na raiz do que posteriormente seria conhecido como Rumba?

Exemplo de Décima

Yo sueño que estoy aquí
de estas cadenas cargado,
y soñe que en otro estado
más lisonjero me vi
Qué es la vida? Un frenesí

Calderón de la Barca
La Vida es Sueño

História da Salsa

Os textos exibidos nesta página são de autoria de Gustavo Lilla, frutos de vasta pesquisa em obras publicadas por historiadores renomados, referências de artigos e matérias impressas e online, conversas, debates e discussões com pesquisadores, músicos e estudiosos da música e da cultura Latinas.

Quaisquer dúvidas podem ser encaminhadas por email: gustavo@salsadesignseo.com.br ou pelo formulário de contato.

  • Parte I
  • Parte II
  • Parte III
  • Parte IV
  • Parte V

A Diáspora Africana no Caribe e América Latina

YorubaA música Latina é o produto de uma cultura que combinou influências da Europa, África e dos povos indígenas da América Latina, assim como dos seus vizinhos Norte-Americanos. Historicamente a música e a cultura Latinas sofreram uma proeminente intervenção das culturas indígenas Africanas, atribuindo às mesmas características de fluidez nessa mistura cultural. Os importantes gêneros da Música Latina como os Cubanos Son, Danzón, Mambo e Bolero, Samba Brasileiro, o Tango Argentino, a Cúmbia Colombiana, a Bomba e a Plena Porto-riquenhas, e o Merengue Dominicano possuem todos uma qualidade rítmica e tonal que deriva da África e suas raízes indígenas. Essas tendências rítmicas e harmônicas compõem as principais distinções da música Latina para a Européia e a Norte-Americana.

Apesar da mais importante (provavelmente) e internacionalmente reconhecida música Latina no início do século vinte ter sido o Tango, a música que dominou o cenário Latino restante foi a Afro-Cubana. O contexto da música Afro-Cubana é o núcleo da migração das formas culturais Africanas para o Caribe, abrindo espaço para o surgimento de gêneros como o Merengue, Cúmbia e o Samba. A música Afro-Cubana é o gênero mais desenvolvido dentre os que a indústria denomina: Tropical. É também a mais reconhecida devido às várias formas de dança envolvidas, sua influência no Jazz Norte-Americano, sua transformação no que hoje chamamos de Salsa, e acima de tudo, pela introdução da Clave - padrão rítmico de cinco tempos que define de uma forma geral a compreensão da música Latina como ela é.

A importância central de Cuba à música Latina deve-se muito à sua localização geográfica, que a tornou uma das principais estações marítimas para todos os tipos de viagens e comércios dos séculos XVI e XVII. As maiores cidades, como Havana e Santiago, eram consideradas verdadeiros centros da cultura Hispânica no Caribe, que absorviam e contextualizavam a música da Espanha (Andaluzia) e de cidades da Europa como Paris e Nápoles. Sob domínio Espanhol nos séculos XVI e XVII, Nápoles foi o berço da Ópera Bufa - grande influência na música Cubana no século XIX.

Combinando instrumentos musicais Europeus como violão, bandolim e alaúde, e tambores Iorubas como o batá, utilizado em cerimônias religiosas, os Cubanos criaram o tres, um pequeno violão com três conjuntos de cordas duplas; o timbale, o bongô e as congas; assim como os bastões da clave utilizados para manter o tempo de marcação. À medida que Cuba avançava pelo século XIX, instrumentos de corda, flautas e pianos importados da Europa e Estados Unidos começavam a desempenhar um papel cada vez mais importante na música. A batida Afro-Cubana é um arranjo complexo de vários ritmos, derivados de diferentes culturas Africanas, em sua maioria Yoruba e Congolesa. A percussão Africana encontrada nas raízes da música Afro-Cubana é em parte uma forma de comunicação, uma invocação religiosa a um conjunto de Deuses Africanos denominados Orixás. Religiões mundanas da África Ocidental e Central foram trazidas para o Novo Mundo através da escravidão, começando em Cuba no início do século XIX. Os Yorubas trouxeram um complexo sistema de crenças e práticas religiosas que incorporavam rituais de dança e tambores.

SanteriaA Santeria era (e ainda é) uma forma dos Yorubas adorarem seus deuses "disfarçando-os" na identidade de Santos Católicos, como: Xango » Sta. Bárbara | Elegguá » Sto. Antônio. Nos rituais de Santeria (chamados de Bembé) os orixás são chamados para uma espécie de "possessão" - o que vulgarmente chamam de "baixar o santo". Durante as Bembés, músicos/sacerdotes, empunhando seus arrasadores tambores Batá (bem como outros instrumentos que até hoje não são revelados aos descrentes), criavam um delírio induzido por transe que perdurava por horas. Rituais como esses, praticados no início do processo de escravidão no Novo Mundo são ainda bastante comuns em Cuba. As Rumbas derivaram de rituais da Santeria, e apesar de bastante similares, não contam com a mesma função religiosa. Os Orixás são louvados, e a importância dos tambores ainda permanece, mas essa celebração não é exclusiva aos iniciados. As danças presentes nessas festas são igualmente chamadas de Rumbas, e possuem estilos específicos como: Guaguancó | Columbia | Yambú. O Guaguancó se tornaria a forma mais popular de rumba, e contém uma sequência de pergunta-resposta entre dois vocalistas, um coro e um segmento de dança onde um casal (homem e mulher) é rodeado por um círculo de outros dançarinos. O homem rodopia seu corpo imitando um galo que tenta fecundar uma galinha (representada pela mulher/parceira), num belíssimo ritual de cortejo e acasalamento. Na Columbia há apenas um dançarino que executa movimentos rítmicos, fortes e aparentemente agressivos, similares ao da Capoeira. O Yambú conta uma história, com dois dançarinos atuando como as personagens desse enredo, e normalmente utiliza a forma de décima (métrica poética de composição herdada da Espanha - veja exemplo no destaque ao lado).


fotos: (1) músicos Yoruba | (2) ritual de santería com tambores batá

 

Clave & a Música Cubana

Afro-Cuban All StarsAs tribos da África Ocidental contribuíram com várias antecessoras do que posteriormente se tornaria a Clave Afro-Cubana. Cada uma era baseada em rituais específicos da religião Yoruba. No entanto, a estrutura básica consolidada em Cuba foi a clave de cinco tempos (ou cinco batidas), divididos em dois compassos, e com variações em termos de acentuação e pausas. A Clave se tornou o princípio ordenador da música Latina, e dois bastões de madeira são usados pelos músicos para marcar o ritmo de uma música, seja ela um lento bolero ou um intenso guaguancó. Estes bastões são chamados de Clave muito provavelmente por incorporar a função de desvendar ou desbloquear o código da música Afro-Cubana (nota: "clave" em espanhol significa "chave"). A clave evoluiu em Cuba tão logo começaram as interações entre os grupos étnicos no período de escravização do final do século XVII até a metade do século XVIII. A Clave de Rumba antecedeu a Clave de Son, que lentamente evoluiu como um resultado de laços estreitos entre as tradições ritualísticas Africanas e influências seculares da sociedade Cubana Creole. A clave preservou noções Africanas fundamentais: seu padrão nunca muda durante a música; a melodia da música determina se a clave deverá ser tocada no formato 3/2 ou 2/3 (seja de Son ou de Rumba).

O desenvolvimento da música Cubana até o início do século XX seguiu diversas linhagens. No século XIX havia a música de salão da burguesia, que era tocada primeiramente nas catedrais, e depois em teatros. Outro braço da música Cubana, a Guaracha (orginada no século XVII como uma espécie de música da classe baixa) atingiu picos de popularidade em meados do século XIX - um século que presenciou também a evolução da Contradanza, derivada da contradança Francesa. Em cidades como Matanzas, ao final do século XIX, dançarinos e músicos passaram a rejeitar a rigidez da contradanza, dando lugar a estilos mais improvisados que originaram a forma primária Cubana, o Danzón.

DanzónApesar de outros países como Porto Rico, República Dominicana, Venezuela, Colômbia, Panamá, México e Peru desenvolverem músicas igualmente híbridas de origens Africanas, Espanholas e Indígenas, a música Cubana tornou-se o padrão internacional para música Latina, e o Bolero Cubano, ou a música romântica, tornou-se popular e muito importante para as chamadas Orquestas Típicas. Outra ramificação dessas Orquestas surgiu no início do século XX, quando o pianista Antonio María Romeu formou sua primeira Orquesta Charanga. As Charangas tocavam versões mais leves e rápidas do Danzón, eliminando as sessões de metais e dando mais ênfase às flautas, violinos e piano. Ainda no século XX várias vertentes da música Cubana ganharam os salões de dança. Corporações Americanas, depois da guerra Espanhola, reinaram livremente em Cuba, e gravadoras logo se voltaram para Havana, atraindo músicos de outras partes da ilha. O Son (música popular e poli-rítmica desenvolvida originalmente em Santiago), o Bolero e o Danzón foram re-contextualizados por novas influências de Havana, da música popular e do Jazz Americanos, além da Rumba Africana. Assim como a Rumba, o Son é muito mais do que uma forma de música, é um ambiente, uma atmosfera que expressa a essência da cultura Cubana.


fotos: (1) Afro-Cuban All Stars | (2) dançarinos: danzón

 

O Son Cubano

tresDevido à dinâmica e essencial cultura Cubana do século XIX, formas musicais como o Son foram cristalizadas na ilha, e elevadas à sofisticação antes de serem exportadas e popularizadas em outros lugares. A estrutura do Son é relativamente simples, formada primeiramente por uma Introdução (contendo versos normalmente octossilábicos em quatro linhas - uma variação da Décima). Em seguida na seção do Montuno, elementos estabelecidos na introdução são desenvolvidos e o coro apresenta o refrão. A Décima foi fundamental para a estrutura de versos do Son, e o alaúde Ibérico evoluiu para o Tres Cubano, que possui três conjuntos de cordas duplas. A clave, tocada com bastões, marca o ritmo e o padrão pergunta-e-resposta, abrangendo a modulação rítmica normalmente chamada de Montuno. Instrumentos de percussão como Güiro e Maracas representam a união de tradições das músicas Africanas com os Povos Indígenas. Rebecca Mauleón, em seu livro "Salsa Guidebook for Piano and Ensemble" descreve o Son como a justaposição de três padrões rítmicos: o Tumbao (linha sincopada de contrabaixo); a Seção Rítmica, executada por violão, bongôs e maracas; e a Clave. Segundo a autora, a 'assinatura' do Son pertencia às linhas melódicas do violão.

No início do século XX, o Son se estabeleceu em Havana, que havia se tornado uma espécie de ímã de migração para os camponeses. Durante esse período, várias formas de Son existiam, como o Changüí (muitos afirmam, inclusive, que este era um antecessor do Son), que apresentava um som forte, com características mais Africanas, do sul de Guantánamo - em contrapartida ao som mais suave do Son guajiro, ligado ao son montuno. No entanto, ambos tinham uma estrutura lenta e contavam histórias do nacionalismo rural. Sua música, adaptada das formas poéticas Espanholas derivadas das Décimas inspirou as modulações rítmicas da Salsa Contemporânea chamadas de Coro. A Guaracha (espécie de música satírica com origens no século XVIII) foi moldada ao formato do Son, com suas próprias modulações de improviso.

BongosO Son tornou-se tão popular em Havana, que seus grupos passaram cada vez mais a tomar o lugar das Orquestras de Danzón. Sextetos, que incluíam dois Vocalistas (um tenor que tocava a clave, e um barítono com as maracas), Tres, Bongô, Güiro e Baixo, compunham a formação sofisticada do Son. Eles tocavam suas músicas em Clave de Son, o que facilitava a movimentação dos dançarinos (diferentemente da Clave de Rumba), e definitivamente mudaram o rumo da música Latina, uma vez que permitiam uma integração mais suave da melodia Européia - assim como a movimentação de seus estilos de dança. O Sexteto Habanero, liderado pelo vocalista Ignacio Piñeiro, se tornou a grande referência popular entre os dançarinos da década de 1920, e ao adicionarem um Trompete à sua formação, passaram a ser conhecidos como o genial Septeto Nacional. O "boom" da música Cubana atraiu a atenção de Hollywood. Em 1946 Desi Arnaz rompeu com a banda Cugat, ganhando sucesso com um cover de Babalú, e em 1950 passou a integrar o elenco fixo do badalado show da TV Americana "I Love Lucy" (Eu Amo a Lucy). Com isso a música Cubana adentrou ainda mais na cultura Americana.

A música Cubana evoluiu de rituais semi-religiosos de Rumba e Toque, de música de escravos, para Hollywood, e poucos atentos observadores Norte-Americanos tinham uma vaga idéia dos fundamentos da música Cubana, ou ainda entendiam minimamente o que havia acontecido durante o processo. A tradição Afro-Cubana atingia então Nova Iorque, e por lá ficaria por um bom tempo...


fotos: (1) o tres cubano | (2) bongôs

 

A Era do Mambo

Mario BauzáA Salsa é o primeiro gênero de música Latina originado numa metrópole Anglo-Americana, apesar de sua incrível mistura de Latinos. A migração da música Cubana para Nova Iorque gerou, finalmente, a Salsa, a música que domina as pistas de dança nos clubes Latinos desde Nova Iorque até São Paulo, e é a cadência, o pulso da música Latina. Enquanto muitos músicos puristas Afro-Cubanos continuam a afirmar que a Salsa nada mais é do que uma variação da herança musical de Cuba, o cruzamento de experiências que a música sofreu em Nova Iorque na década de 1920 incorporou influências de vários ramos da tradição Latino-Americana, e posteriormente do Jazz, R&B e até mesmo do Rock. Nas décadas de 1930, '40 e '50, enquanto o Son Cubano e elementos derivados da rumba como o Guaguancó e a Guaracha incorporados a ele contribuíam para o desenvolvimento da Era do Mambo, a música Afro-Cubana já se tornava algo diferente em Nova Iorque, independente do que acontecia em Havana. Músicos do Caribe e da América do Sul têm tocado juntos em Nova Iorque desde a década de 1920. No entanto, a popularidade da música Latina em Nova Iorque provocou um efeito cascata em Havana, causando um grande aumento do turismo em Cuba e aumentando a natureza competitiva de hotéis e cassinos da capital. Muito provavelmente o momento chave dessa americanização da música Latina tenha sido quando o arranjador Cubano Mario Bauzá, que havia chegado a Nova Iorque em 1930, e seu parceiro percussionista Chano Pozo brilharam juntos de uma forma que nunca seria possível em Havana. Seus trabalhos em conjunto com o trompetista Dizzy Gillespie, que consolidou a influência do Jazz na música Latina, ajudou a impulsionar o Mambo - a maior revelação da música Afro-Cubana - para o centro do palco musical da América.

Pérez PradoO Mambo aparenta ser uma palavra de origem Congolesa, que alguns traduzem simplesmente por "conversa", e outros como "falar com os Deuses". O termo foi utilizado pela primeira vez num contexto de música dançante quando dançarinos Cubanos, em 1930, se referiam a um segmento estendido da percussão como mambo. O segmento era descrito numa forma onde o cantor geralmente conta uma história urbana, e as sessões de percussão e metais interagem como uma orquestra de Jazz, variando em compassos 4/4 e 6/8, sempre na clave. Um segmento de improviso, no clímax da música, permite às várias seções da orquestra conversarem umas com as outras, e aos dançarinos, inspirados pelo que tá rolando na música, elevar este diálogo a um nível ainda maior. Em sua versão original, o Mambo era uma música dançante que evoluiu a partir do Son e da Guaracha e que era tocada em Cuba no final da década de 1930, quando os septetos passaram a incluir em suas formações trompetes extras, piano e congas. Apesar de ter sido precedido por grupos como La Sonora Matancera e Septeto Cuba, Arsenio Rodríguez - um tocador de Tres cego - inovou por adicionar as congas, sedimentando a importância do conjunto Cubano clássico. Rodríguez, cuja música dispensava o segmento de introdução do Son e ia direto para o montuno, e Israel "Cachao" Lopez, que tocava contrabaixo para Antonio Arcaño, foram ambos creditados pela inovação do Mambo. E 1940, o intenso contato entre músicos Cubanos - ou de influência Cubana - e as big bands Americanas de Jazz (a exemplo de Mario Bauzá e Dizzy Gillespie), conduziu o Mambo a uma segunda direção. A última ramificação, mais popular entre os Norte-Americanos, foi o surgimento de uma música dançante, modernizada, criada pelo pianista e bandleader Cubano Pérez Prado e seu vocalista Benny Moré. Enquanto Pérez Prado tornava o Mambo mais aceitável para a região central dos Estados Unidos e a Costa Oeste, em Nova Iorque a música evoluía para uma forma de arte menos comercial e mais orgânica, provocando um fenômeno cultural. Do final da década de 1940 até meados da década de 1960, o lugar para se ouvir e dançar música Latina em Manhattan era um clube em Midtown chamado Palladium. Transformado a partir de uma academia de dança em 1946, o Palladium se tornou uma espécie de paraíso multi-cultural para os dançarinos das comunidades Latinas, Afro e Euro-Americanas de Nova Iorque.

Tito Puente & Tito RodriguezO Palladium contava com três bandas dominantes: Machito's Afro-Cuban Orquestra, a orquestra de Tito Rodriguez, e a orquestra de Tito Puente - provavelmente o maior talento a emergir nesta era. Diferentemente de Machito, nascido em Cuba, Tito Rodriguez e Tito Puente eram ambos heranças de Porto Rico, fato que seria bastante significativo no caminho do Mambo para a Salsa na década seguinte. Cubanos imigravam para Nova Iorque desde a virada do século, mas o afluxo massivo de Porto-Riquenhos ao final da década de 1940 fez dos mesmos o grupo étnico Latino dominante na cidade. Nesta época, as gravadoras de Porto Rico enfrentavam diversos problemas, e estavam muito deficientes. Músicos Porto-Riquenhos seguiam para Nova Iorque desde a década de 1920, acompanhando a migração prematura de trabalhadores da indústria e do tabaco, e foram expostos à sofisticação urbana do Jazz. Quando Tito Rodriguez e Tito Puente emergiram, na década de 1950, a música Latina já havia absorvido a influência dos inovadores Machito, Mario Bauzá e Dizzy Gillespie. O Son e a Guaracha haviam se rendido aos encantos da nova forma de Machito tocar Jazz, e o público para o qual Rodriguez e Puente tocavam era muito mais exigente do que aqueles de Havana.


fotos: (1) Mario Bauzá | (2) Pérez-Prado | (3) Tito Puente & Tito Rodriguez

 

O Fenômeno Nuyorican

New York: Brooklyn BridgeAfinal de contas, o que é a tal da Salsa? Se por um lado podemos afirmar que salsa é um estilo de música que predomina nas pistas de dança das baladas Latinas dos Estados Unidos e América Latina, de arranjos sofisticados e destacados pela marcação da Clave, com músicas de origem Afro-Cubana, segmentos de piano, metais e percussão, e cantada por um crooner de voz aveludada em um terno reluzente. Por outro, a definição do termo ainda é fruto de intermináveis discussões e disputas no meio Latino. Se o Mambo foi como uma constelação de tendências rítmicas então, como afirmou certa vez o sonero Rubén Blades: salsa é um conceito e não um ritmo especificamente. No entanto, apesar da salsa não passar de uma nova virada nos ritmos tradicionais da música Cubana - son, cha-cha-cha, mambo, guaracha, guaguancó e danzón -, é ao mesmo tempo um moderno conceito de marketing e a voz cultural de uma nova geração. Mesmo com uma nova roupagem (andamento, arranjos etc.), a salsa ainda é baseada na estrutura tradicional do Son Cubano: melodia básica de introdução, seguida por um segmento onde tanto o cantor como a banda têm a liberdade para improvisar.

A Salsa representa a cristalização de uma identidade Latina do início da década de 1960 em Nova Iorque. A primeira pessoa a utilizar o termo Salsa para divulgar a música Latina de Nova Iorque, o editor e designer gráfico Izzy Sanabria, ressaltou que muitos dos músicos que hoje estão associados ao gênero deram duro para inovar e criar novos estilos, sem saber que estavam tocando o que posteriormente seria reconhecido como Salsa. Muitos músicos, inclusive, rejeitaram veementemente o termo. Machito, por exemplo, afirmava que Salsa não era nada além de uma nova versão daquilo que ele já vinha tocando por quarenta anos. Quando Tito Puente foi perguntado sobre a Salsa, disse: "Eu sou um músico, e não um cozinheiro". Mas a salsa (como molho) é uma excelente metáfora para o mix cultural, e uma alusão a um tipo especial de tempero. Assim como Sanabria disse, se ele tivesse sido completamente honesto e afirmado que a Salsa era a boa e velha música que músicos como Machito e Puente vinham tocando, será que o mundo inteiro prestaria atenção à música Latina de Nova Iorque? "Salsa" foi evocada por Izzy Sanabria como uma forma de categorizar a versão moderna da música Afro-Cubana produzida em Nova Iorque entre o final da década de 1960 e o início da década de 1970.

Nuyorican Poets Cafe: Miguel PiñeroA Era do Mambo nas décadas de 1940 e 1950 foi fundamental para a música Latina nos Estados Unidos por ter popularizado o som Afro-Cubano. Mas, quando os anos 1950 se foram, duas importantes mudanças ocorreram: as Big Bands Latinas encolheram (em termos de integrantes), seguindo o mesmo caminho das antigas Big Bands de Jazz; e a Revolução Cubana de 1969 reduziu drasticamente o contato entre a ilha e os músicos de Nova Iorque. O domínio da cominiade Latina em Nova Iorque pelos Porto-Riquenhos, com início na era pós II Guerra, tomou uma nova dimensão. A música Afro-Cubana tocada em Nova Iorque evoluiu para algo diferente. A era pós-mambo da música Latina que tomou conta de Nova Iorque na década de 1960, com bandas lideradas pelo percussionista Ray Barretto e o pianista Eddie Palmieri, por exemplo, tinha duas grandes influências: a primeira com as novidades musicais como as charangas e pachangas de Cuba, que traziam as inovações de estilos e arranjos para o cenário Nova-Iorquino até o momento do bloqueio político, econômico e cultural instalado em Cuba em 1962; a segunda ficou por conta do crescimento da interação entre Latinos de Nova Iorque e Afro-Americanos dos bairros da classe trabalhadora como Manhattan, Brooklyn e Bronx. O resultado dessa integração, os chamados Nuyorican ou Identidade Latina de Nova Iorque, seria uma espécie de cultura híbrida, basicamente de inspiração Porto-Riquenha, mas incorporando influências de diversos grupos Latinos dos EUA, em sua maioria de Cuba e cidades caribenhas como Cidade do Panamá, Cartagena e Barranquilha, Colômbia, Caracas, Venezuela, e Santo Domingo, República Dominicana.


fotos: (1) New York: Brooklyn Bridge | (2) Nuyorican Poets Cafe: Miguel Piñero

 


 

Salsa | Design & SEO by Gustavo Lilla ©2009